morandi

Se você não gosta muito de ler já lhe adiantamos: a fotógrafa entrevistada de hoje gosta de escrever – e não é pouco! Mas acrescentamos, você vai perder a oportunidade de conhecer o trabalho de uma profissional incrível com um olhar sensível que vem se destacando no mercado com pouco tempo de experiência, e que é uma fonte de inspiração e conhecimento. Sim, a gaúcha Tati Itat, de Poço das Antas, que se dedica à ensaios poéticos femininos, eventos sociais (dentre eles, o casamento), e projetos autorais, é um nome que provavelmente você ouvirá falar muito ainda.

Blog Wedding: Primeiramente Tati, há quanto tempo você fotografa e como decidiu profissionalizar-se nessa área?

Tati Itat: Eu iniciei experimentos na fotografia em 2009, quando trabalhava como empregada doméstica e cursava Licenciatura em Artes Visuais pela UFRGS e registrava meu cotidiano dentro de casa, registrando a espuma de sabão nos baldes, a louça na pia, os respingos de tinta no ateliê de pintura. Em 2010/2011 eu fiz alguns trabalhos como modelo, e neste momento duas situações interessantes aconteceram: Eu achava interessante como o cenário, a luz e a direção de cena eram conduzidos, mas por outro lado eu achava tudo muito vazio. Apesar de ver a imagem final glamorosa eu não me reconhecia naquelas fotos, elas não falavam nada sobre mim, e me sentia apenas um cabide, um objeto. Isso despertou em mim a vontade de fotografar mulheres.

Fotografava minhas amigas nos finais de semana com uma câmera semiprofissional acreditando que eu sabia ver o lado mais bonito delas. Mas o fazia tentando ser uma experiência em que se sentissem importantes, valorizadas (diferente da minha experiência enquanto modelo). Fiz um álbum no Facebook na época que se chamava “Inversão dos papéis: de modelo à fotógrafa” e postava essas fotos lá. As pessoas começaram a me procurar para fazer “books”. Assim comecei a fazer alguns ensaios esporadicamente, brincando. Em abril de 2016, após terminar uma formação em saúde mental através de uma Residência Multiprofissional em Saúde Mental Coletiva pela ESP/RS, decidi me dedicar à fotografia como profissão.

BW: Como você definiria o seu estilo? Qual foi o caminho que percorreu para definir sua linguagem fotográfica em sua fotografia?

TI: Difícil dizer como eu definiria meu estilo, rs. Gosto de fotografias que me fazem parar, que mexem com a minha imaginação, que não passem batido. Gosto de imagens abstratas, que não revelem tudo, que me permitam imaginar sobre elas, que transbordem suas bordas, à obviedade inerente da fotografia ser fragmentária. Me questiono sobre como, e se é possível, transbordar, ultrapassar limites. Quando isso acontece, aquele frame tem força. O caminho que eu percorri para definir minha linguagem na fotografia foi muito único e especial. Tem muito a ver com os percursos trilhados antes mesmo de fotografar com uma câmera em mãos. Desde criança gostava de pintar e desenhar, sempre com cores vivas, ou, quando desenhos em preto e branco com lápis 6B, gostava de enfatizar contrastes, também fazia colagens, gostava de escrever. Misturava desenhos com pinturas e palavras (uma bagunça). Sempre fui fascinada pelas infinitas possibilidades de criação e expressão.

Pensando agora sobre meu estilo, por vezes, ouço dizer que tem certa dramaticidade, áreas de sombras que talvez tenham a ver com sombras internas minhas. Interessante e fundamental dizer que para o meu processo criativo, e forma de mediar os ensaios, especialmente, tem muita relação com a minha caminhada enquanto trabalhava nos Centros de Atenção Psicossocial – CAPS, durante a Residência. Me deparava com sujeitos que tinham abandonado a si mesmos, adotando o CID, o diagnóstico recebido como sua identidade, muitas vezes nem se apresentavam com o seu nome, mas sim, como sendo a sua doença. Isso me perturbava muito e me desafiava: queria saber quem mais eram aqueles sujeitos além da sua doença. Ali começava o exercício de enxergar o outro além do que os meus olhos podiam ver, ali começava a fotografar sem ter uma câmera em mãos, na tentativa de desvendar e possibilitar que a própria pessoa revelasse a si mesma quem mais ela era além da sua dor, do seu sofrimento. Hoje quando fotografo, isso tudo vem à tona: ver o outro além das suas bordas, dos seus contornos físicos, da sua aparência externa. O tratamento estético conferido às imagens são de acordo com os sentimentos que aquela sessão revelou, inspirados também em estudos de cores e pinturas da história da arte.

BW: Onde você busca suas inspirações para alimentar seu processo criativo?

TI: Minha inspiração vem através de conexões e fontes múltiplas. A partir de mergulhos para dentro das profundezas do universo interior do outro. E em projetos autorais, a partir de conexões profundas comigo mesma: me deparo com questões internas que tem relação com o mundo externo. Acontece uma fusão entre àquele com este. E preciso encontrar formas de traduzir isso em imagem. Costumo dizer que vejo a cada um de nós como livros abertos que estão sendo escritos, parte já foi, parte está sendo, parte ainda é um devir. Ler permite diversas interpretações, viagens e imaginações.

Sinto-me instigada e curiosa para saber quais páginas do livro a pessoa que está diante de mim numa sessão fotográfica me permitirá ler, interpretar, recriar (talvez). Tenho descoberto recentemente que convocar as pessoas a “artistarem” comigo, a cocriarem é muito mais rico, vívido. Desperta. Um dia de neblina, de chuva me inspira muito. A neblina por ter algo de efêmero, transparência, ser brincadeira – o que posso ver, o que não; jogo de mostra-esconde. Luz e sombra do período Barroco me piram, assim como também as pinceladas soltas do Impressionismo.

BW: Já que a maior parte dos nossos leitores são fotógrafos de casamento, você poderia contar pra nós como se prepara para fotografar um casamento?

TI: Quando fotografo casamentos, a minha preparação se dá a partir de um despir-me do juízo e da opinião; e da tomada de consciência: sou a narradora dessa história, estou aqui para documentar. Qual é mesmo o meu, o teu papel enquanto fotógrafo? Fotografar e ponto. Onde será mais bonito fotografar um casamento: num hotel luxuoso ou num depósito de uma loja de materiais de construção? Nos dois lugares. O que é mais bonito? Não é o motivo pelo qual estamos lá? Bonita é a união, o momento, o significado. Somos apenas (isso não significa menos importantes), contadores de histórias! A melhor posição é obtida ao me entregar ao momento, estando presente de corpo, alma e coração. O sentir me conduz a passos para mais perto da cena ou mais distantes.

BW: Que tal contar um pouco sobre a sua experiência mais recente na fotografia de casamento?

TI: Foi ao fotografar um casamento haitiano, na cidade de Estrela, interior do RS. Alguns dias antes do dia 31 de dezembro de 2016, o senhor Luís veio me procurar perguntando o que eu iria fazer no dia 31/12. Achei estranha essa pergunta vinda de uma pessoa que eu também não conhecia. E respondi: “Como assim? Depende? (e ri)”. Então ele me falou que um casal de amigos haitianos casaria naquele dia e me perguntou se eu poderia fotografar. Me explicou que os noivos não teriam fotos por condições financeiras e que gostaria de presenteá-los com tais. Me informou que amigos haitianos residentes em Poço das Antas iriam de ônibus no sábado à tarde até Estrela, onde seria o casamento e que eu poderia embarcar com eles no mesmo ônibus. Cheguei às 14h ansiosa ao ponto de encontro combinado. Aos poucos os haitianos foram chegando, discretos, sorridentes, olhares um tanto tímidos. Estava nublado, e partimos. O motorista não sabia exatamente onde ficava o local (estranhei). Na cidade de Teutônia (cidade entre Poço das Antas e Estrela) mais pessoas embarcaram. Começou a chover. De repente, chegamos em Estrela. Me deparo com um grande muro coberto de ramos verdes e um haitiano espiando entre uma portinha mais adiante. Todos desceram. Achei estranho descermos ali. Não avistei nenhuma igreja e ninguém me passou roteiro algum. Achei que iríamos direto à igreja. Qual igreja? Fui seguindo-os, adentramos um beco e vi todos na minha frente numa escadaria espiando algo (que eu me perguntava: o que está acontecendo aqui? Que lugar é esse? Será uma igreja alternativa? Aos poucos consegui me aproximar do que eles estavam vendo:  a noiva se arrumando na sala, as crianças (seus filhos) num quarto, e o noivo junto com os padrinhos noutro quarto. São tantas emoções ao descrever… O semblante introspectivo da noiva e das demais mulheres, a alegria das crianças e os olhares desconfiados dos homens. Descobri que Jack e Denise já eram casados no civil há 14 anos, e agora, decidiram casar no religioso.  Algo que me marcou muito nesse casamento: quem quer, dá um jeito! A noiva fez o bolo do casamento e um licor que serviu em galão, que por sinal estava delicioso (pedi a receita, mas em português ela não soube falar, hehe). Quanto empenho da comunidade em fazer acontecer, cada um contribuindo como e com o que podia. Este casamento teve bastante repercussão entre os fotógrafos de casamento, especialmente. Recebi mensagens de diversos colegas espalhados no Brasil falando sobre terem recebido um “tapa na cara” ao se depararem com o respectivo álbum. Que muitas vezes ficam preocupados ou presos à questão do local onde será o casamento, usando isso como “muleta” para justificar que as fotos não ficaram tão boas por ter sido num local simples, ou que as pessoas estavam vestidas “bregamente”, ou que nada acontecia (como assim nada acontece?), etc. Esse casamento serve para nos lembrar, mais uma vez, que somos apenas contadores de histórias, não importa onde, quanto os noivos gastaram na decoração, no salão, essas coisas. Não somos nós as estrelas. E mesmo que fôssemos, não nos dá o direito de julgar isso e aquilo. Somos apenas fotógrafos e nossa missão é?

BW: Como você enxerga a importância do equipamento fotográfico? O que você usa?

TI: O equipamento fotográfico é apenas o meio, a ponte entre algo maior do que a resolução em megapixels possíveis. Como sou indecisa (rsrsrs), uso uma Canon 60D, 50mm e 18-135mm, e a Nikon D750, lentes 35mm e 85mm.

BW: Quais são seus objetivos na área fotográfica?

TI: Além de querer seguir com os ensaios femininos e fotografando casamentos, tenho em mente trabalhar em cima de projetos autorais na linha fineart, perseguindo nuances de pintura na fotografia e outras intervenções; e também em projetos de fotografia documental (os quais ainda estão em desenvolvimento).

BW: Você tem algo a acrescentar para os colegas de profissão que estão lendo a sua entrevista?

TI: Gostaria de lançar uma perguntinha básica, porém importantíssima aos fotógrafos: Por que tu fotografa? Quem dita como tu deves fotografar? Lembre-se: Quem tu és, todas tuas virtudes e inclusive teus abismos te diferenciam, te tornam único. Olha para dentro de ti mesmo, para dentro deles. Há muita coisa lá que você nem sabe ou lembra que existe. Pode parecer assustador, mas é montando nos monstros, dominando-os que tu também cria forças e você os reinventa, ressignifica. Teus abismos são somente teus. Transforma-os a partir do teu sentir, e teu olhar também será!

Ao ler livros, poesias, escutar conversas aleatórias na esquina ou na padaria, anoto em caderninhos de bolso dispositivos que funcionam como “starts” para a criação (nem sempre imagética fisicamente, apenas virtual). Gostaria de compartilhar algumas com vocês, e se alguém se propor a me responder com imagens, ficaria agradecida e, ansiosa por ver as infinitas possibilidades de imaginação e criação.

BW: Por fim, para conhecermos um pouco mais da Tati Tati, além da Tati fotógrafa. Podemos finalizar essa entrevista com você falando um pouco de si mesma? (Sabemos que essa não é uma pergunta fácil, rs).

 TI: Já vou esclarecer algo para a curiosidade de muitos: Tati Itat não é meu nome. Inventei. Um dia deu uma treta grande na vida e tive que me reinventar. Me sentia virada ao avesso. Por questão de urgência e sentimentos de medo e pânico tive que pensar rápido. Olhei para a palavra Tati e fiquei a brincar. Precisava de um outro nome a partir da “Tati”. Olhei, olhei, li de trás pra frente: É isso: Itat – será o complemento do seu inverso! Que verso. Nada verso. Eita! Cheguei na aula de Artes dia seguinte e me perguntaram se criei meu nome artístico. Dei risada e pensei: Pode ser, ué! Inicialmente seria apenas por tempo provisório e foi ficando…

“Eu sou o todo de um extremo ao outro”, disse Platão, que quem me contou foi uma mulher mestre em se reinventar, a Magale Mendel, ao olhar o logo: “TATITAT”, estampado no meu pencard. Nunca tinha pensado como Platão a respeito disso. Agradeci à ela por esta observação. Um dia me perguntaram sobre como eu definiria meu estilo (lembrei que foi nessa entrevista, rs, e noutras também). Acho essa pergunta tão difícil de ser respondida. Nem sei se precisa ser categorizada, descrita, conceituada. Eu tenho tantas ideias, e tento executar parte delas, como se fosse um constante brincar. Este verbo cabe dentro de experimentar: desde os tempos da faculdade eu fazia experimentações com desenho, pintura, xilogravura, escultura (fui um desastre), fotografia, e outras coisas que não sei nomear. E era um tanto angustiante quando me perguntavam sobre qual a minha pesquisa poética, minha linha de pesquisa (me dava um gelo essa pergunta, porque eu fazia mil coisas, mas nada concreto ou tão claro sobre qual linha seguir). Hoje tenho visões diferentes sobre essa mesma questão. Ao passo que experimentar sem uma grande preocupação, sem um grande propósito “final” é um tanto “caminhar sem ter para onde ir”, ou “você faz tudo, mas não faz nada” pode ser muito angustiante e desesperador – pois nos é imposto saber as direções, digo, saber a direção, o caminho a seguir, como se fugir disso fosse ser um grande erro na vida. Ao passo que faço essa leitura (coletiva), também vejo possibilidades inúmeras de trilhar novos caminhos e se redescobrirmos e se reinventarmos de modo que nem sequer imaginávamos – seja na fotografia, seja misturando ela com outras linguagens, seja na nossa postura enquanto pessoas, fotógrafos (que às vezes se pensam mais artistas do que realmente são). É o brincar, é o experimentar que me possibilita transitar de um mundo ao outro – tanto através da imaginação quanto quando a inquietação nos leva ao fazer, e aí transitamos por outros mundos, outros fazeres, outras formas de expressão, de ver, enxergar, conhecer ao outro e a si mesmo não mais somente na imaginação.

Essas loucuras todas já fazem parte de mim desde criança. Ficava fascinada como simples linhas davam forma a um cisne (que meu pai desenhava para mim), casinhas, lagos, montanhas e eu coloria. (Que palavra bonita acabei de descobrir agora: coloria – cá comigo: ri enquanto colore; colorir faz rir). Então pintura e desenho foram minhas principais formas de expressão até os tempos de faculdade. No meio disso ainda fazia teatro num grupo extraescolar. Trabalhar em fábrica de calçados dos 14 aos 18 anos me ensinou muitas coisas, muitas vezes, de forma muito dolorida e perversa (tal como é o nosso sistema). Ali entrei em contato com o meu eu – que não queria morrer em esteiras numa linha de produção e ser só mais um número entre tantos crachás. Além dessa experiência, ter trabalhado como empregada doméstica enquanto fazia a faculdade na UFRGS, também me marcou e ali iniciei na fotografia sem nem perceber – ao fotografar o que eu acreditava que ninguém via da forma como eu enxergava: as bolhas de espuma nos baldes de sabão, as louças na pia, os desenhos nas lajes da calçada, etc (tenho uma galeria de coisas “inúteis” na caixinha que carrego com a mão esquerda, a mão do coração, como diria Rubem Alves, que no entanto, me fazem sorrir, lembrar, reavivar, reconstruir, reescrever).

Este último verbo, reescrever, tem a ver com outra experiência fundamental e transformadora que vivenciei ao fazer uma Residência em Saúde Mental pela ESP/RS. Precisava me reescrever a partir do “zero” num território que nada ou pouco eu sabia, o da saúde mental – mais especificamente, sobre a loucura e o sofrimento profundo do ser humano. Ali precisei encarnar o verbo artistar – dentro dele cabem aqueles citados anteriormente e tantos outros. O reescrever tinha a ver comigo e com os sujeitos implicados neste processo, aos quais eu também tinha o desejo de que pudessem se reescrever outros ou a si mesmos, resgatando aos seus “eus” que muitas vezes foram abandonados pela família e quando pior, por eles próprios. Nesse período fotografava pouco com a câmera, às vezes, detalhes do dia-a-dia. Mas ali acredito que iniciei o aprendizado de fotografar o outro sem ter uma câmera em mãos, vendo além dos seus contornos, das suas bordas, do seu CID, da leitura rasa que meu julgamento fazia.

Enfim, no entanto sem fim, é preciso fechar essa nem tão breve apresentação. Falar sobre coisas mais objetivas talvez fosse mais fácil, rs. Gosto de pintura, de arte, de mato, de estar em contato com a natureza, sinto estar mais perto de Deus e de mim mesma quando imersa na Criação Dele. É Dele que vem minha luz! Também gosto de cuca, rapadura, sobremesa, comer… Rs.

Conheça mais trabalhos seus em seu site clicando aqui

Reprodução Blog Wedding Brasil.